Já tive um blog há uns anos atrás. Ao começar este jurei que não publicaria aqueles textos de auto-ajuda que rolam pela internet e que algum dia foram ou serão lidos pela Ana Maria Braga. Já no quarto post vou quebrar minha promessa. Por isso que promessas feitas para você mesmo não valem nada. A minha desculpa: o texto é de Jorge Luis Borges. E é como um tapa na cara para a moça que passou o dia dentro de casa e nem foi ver o sol que brilhou forte no céu.
Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria.
Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo.
JORGE LUIS BORGES (1899 Argentina – 1986 Genebra-Suiça)
